quinta-feira, 2 de julho de 2009

Entreatro II

Era noite de lua cheia, e o mar escuro cintilava com pequenos diamantes de luz desenhando uma faixa. Eles estavam acampados no alto de uma falésia, onde o vento batia forte e espalhava fagulhas da fogueira no ar. A fogueira não os incomodava o suficiente, e eles mantinham uma distância confortável das labaredas altas ao redor da qual os dançarinos se revezavam. Havia música, comida e bebida. Mais tarde, com o passar das horas, haveriam beijos, brigas e ciúmes. Era uma noite de festa como as outras, mas para ela, era uma noite de despedida.

A voz de Pio atravessou as sombras que enchiam sua mente, como uma carícia. Ela sentiu os braços dele se enroscarem ao redor dela, vindos por trás. Não havia calor físico naquele abraço, mas ela podia sentir outras coisas que eram transmitidas por ele.

“Dance para mim. Dance para que eu tenha lembranças suficientes até o momento de nosso reencontro.”

Ela sorriu, e baixou a cabeça com falsa modéstia. Se desvencilhando de seus braços, ela se agachou, retirando as sandálias com a experiência de anos nas mãos. Retirou depois o lenço que cobria parte dos cabelos negros, e se aproximou da fogueira; descalça, cabelos ao vento, pegou uma rosa vermelha na mão de um dos companheiros, e, quando eles a notaram, fez-se silêncio. Não era sempre que ela dançava. A música mudou. A dança começou lenta a princípio, quase hipnótica, e foi acelerando e se tornando mais intensa e rítmica, e o barulho das palmas era quase ensurdecedor. Os homens olhavam extasiados; as mulheres suspiravam com um pouco de inveja. Mas os movimentos da dançarina eram inigualáveis, sobrenaturais, perfeitos. Pio se aproximou do fogo, devorando a imagem da moça, os olhos dourados brilhando na luz misturada de prata e ouro da luz e do fogo, olhos do mesmo tom dos dela. Os cabelos negros e cheios de ondas flutuavam ao redor dela, acompanhando os passos e meneios da cabeça; a pele pálida refletia a luz do fogo.

Ela era corajosa demais, para dançar tão perto do fogo; e era essa coragem que o atraíra para ela desde o princípio. Aquele pensamento sempre o fazia lembrar das coisas que se sucederam, e de como fora enganado. Essa evidência estava estampada nos olhos felinos da moça, e aquilo o enchia de raiva.

Mas ela encontraria o maldito. Ela o levaria até ele. E ele o mataria, lentamente.

A música estava no seu auge, e ela se entregava à dança de corpo e alma. Quando tudo acabou, ela voltou até ele, e ele a envolveu mais uma vez.

“Vou sentir sua falta, minha pequena.”

“Haverá apenas um oceano entre nós, Pio. E é por uma boa causa. Em breve você irá até mim. Vamos ver se eu sou uma rastreadora tão boa quanto você acha que eu sou.”

by Bete "Bee" Band

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